Os casos de feminicídio apresentaram um crescimento expressivo nos últimos dez anos no Brasil. Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) apontam que o número de ocorrências saltou de 535, em 2015, para 1.470 em 2025.
Dentro desse cenário, a Bahia figura entre os estados com maior número de registros. Em 2025, foram contabilizados 103 casos, colocando o estado na quarta posição no ranking nacional. À frente aparecem São Paulo, com 233 ocorrências, seguido por Minas Gerais, com 139, e Rio de Janeiro, com 104 casos.

De acordo com a advogada Júlia Oliveira, em entrevista ao Info!, os casos recentes têm relação intrínseca com certos movimentos que ganharam força na internet nos últimos anos. "Não podemos fechar os olhos para o que tem acontecido na internet que são esses movimentos de machosfera e de red pill, termos que ainda são desconhecidos por muitas pessoas, inclusive por mulheres. Esses movimentos têm incitado os homens a praticarem todos de violência doméstica contra as mulheres, em especial o feminicídio. E preciso registrar que esse escalonamento de violência tem gerado muita ansiedade entre as mulheres, pois o feminicídio não acaba apenas com a vida da mulher, mas reflete diretamente na vida de toda uma família, pois filhos estão assistindo os pais ou ex-companheiros baterem e matarem suas mães. Precisamos colocar um freio o mais rápido possível nessa realidade".
Segundo a advogada, "com o advento da lei Maria da Penha, as mulheres passaram a se sentir protegidas e ganharam vez e voz, de forma muitas das violências que acometiam as mulheres ficavam subnotificados, hoje elas têm coragem de denunciar os seus agressores. Quantas mulheres fingiam uma queda no banheiro para esconder uma violência doméstica”.

Para Júlia, não basta endurecer as Leis, elas precisam ser cumpridas efetiva e céleres, para não gerar na sociedade um sentimento de impunidade. "São as leis que nos limitam, que nos protegem, que nos regulam e que também nos punem. Mas, obviamente, somente elas não são suficientes para a gente evitar que crimes aconteçam. Nem com prisão perpétua, ou de morte, os casos deixariam de ocorrer, infelizmente. O que nós precisamos trabalhar, além de leis duras, é que elas sejam executadas. Essa execução da pena precisa ser célebre e efetiva, senão o sentimento de impunidade faz com que as pessoas continuem cometendo os crimes porque acham que depois vão sair ilesas".

Os atuais Projetos apresentados e aprovados pelo Governo Federal foram lembrados por Júlia, que destacou esse olhar para o combate à violência contra as mulheres.
"Agora, em março, o Senado aprovou o uso obrigatório de tornozeleiras eletrônicas para os agressores de mulheres, e o governo federal lançou um programa que vai distribuir entre vítimas de violência doméstica, inicialmente em alguns estados como projeto piloto, um relógio que vibra no braço quando o agressor estiver se aproximando dela, para que a mesma tenha tempo hábil de acionar a polícia, chamar um parente, pegar uma arma branca ou o que seja, porque aí trata-se de legítima defesa, se trancar em casa, correr, fazer qualquer coisa para fugir do agressor. Estamos avançando cada vez mais, e agora temos o projeto de lei avançando no Congresso para equiparar a misoginia ao racismo".
Ela também defendeu o debate nos ambientes escolares sobre combate à violência contra mulher, estudos sobre misoginia, machismo, entre outros, para assim "construirmos homens melhores para conviver em sociedade”.
