O medo de denunciar, a pressão da família e o receio de não ser acreditada ainda mantêm muitas mulheres presas ao ciclo da violência. Em Serrinha, esses são alguns dos principais desafios enfrentados pelo Núcleo Especializado de Atendimento à Mulher (Neam), que atua no acolhimento e na investigação de casos de violência contra a mulher. Durante o Agosto Lilás, campanha dedicada à conscientização e ao enfrentamento desse tipo de violência, a delegada titular da unidade, Ramilene Carneiro, reforça que romper o silêncio pode evitar que as agressões se tornem ainda mais graves.
Em entrevista exclusiva ao Info!, Ramilene afirmou que um dos maiores obstáculos é o medo da vítima de que a denúncia provoque consequências ainda piores para sua vida ou resulte na destruição da família. Segundo ela, essa percepção precisa ser combatida, porque a ausência de uma intervenção pode dar ao agressor a sensação de que seus atos não terão consequências.

“É a falta da denúncia que piora a sua situação, já que o agressor não tem freio e vai escalando, piorando a gravidade dos crimes e, consequentemente, destruindo a sua própria família”, alertou a delegada.
A violência também pode ultrapassar a relação entre agressor e vítima e atingir diretamente os filhos. De acordo com Ramilene, é comum que crianças e adolescentes acabem presenciando os episódios de agressão dentro de casa, tornando-se testemunhas de uma realidade que pode deixar marcas mesmo quando não são diretamente atingidos.
Outro obstáculo está fora da própria relação com o agressor. Muitas mulheres temem ser julgadas pela família, por pessoas próximas ou até por integrantes de grupos religiosos. A delegada afirma que ainda existem situações em que a vítima é aconselhada a permanecer em silêncio e resolver o problema dentro de casa.
“As vítimas também ficam com receio de serem ridicularizadas. Receio de levar o caso para a polícia, apurar os fatos, porque a família vai criticar, o grupo religioso vai criticá-la, vai dizer que é exagero, que eles se resolvem entre eles, o que não procede”, afirmou.

Para a titular do Neam, esse tipo de pressão pode contribuir para a continuidade da violência. Por isso, ela destaca a importância de a mulher encontrar uma rede preparada para ouvi-la e acolhê-la. Serrinha conta com uma unidade especializada da Polícia Civil, criada justamente para oferecer atendimento direcionado às vítimas
“Serrinha hoje tem o privilégio de ter uma unidade especializada com a equipe que tem o entendimento necessário para fazer o acolhimento devido nesse tipo de situação”, destacou Ramilene.
Além do atendimento às vítimas, os números apresentados pela delegada mostram o volume de casos que chegam à unidade e avançam dentro do sistema de Justiça. Nos dois anos de existência do Neam de Serrinha, mais de 900 inquéritos foram concluídos e encaminhados ao Judiciário e ao Ministério Público.
.“Nós podemos dizer que foram mais de 900 famílias atendidas de forma indireta”, afirmou.
O Agosto Lilás reforça a necessidade de manter esse debate durante todo o ano.
A orientação é que mulheres que estejam sofrendo qualquer forma de violência procurem a rede de proteção e busquem ajuda antes que as agressões evoluam para situações ainda mais graves.
