Na noite de abertura da Feira Literária Internacional de Serrinha (FELIS), o rapper, escritor e ativista MV Bill deu o tom da programação com uma palestra potente e reflexiva sobre o papel da cultura na transformação social. Antes de subir ao palco, ele conversou com exclusividade com o *Info Serrinha*, abordando temas como o distanciamento da leitura nas periferias, o cenário atual do hip-hop e os aprendizados que o inspiraram a escrever seu livro mais recente.
“O aprendizado importante do livro foi na composição dele, que eu escrevi durante a pandemia. Antes, eu queria contar minhas vitórias, meus troféus. Mas, naquele contexto, decidi falar das vezes que não me dei tão bem, mas que acabaram me ensinando alguma coisa”, contou o artista, revelando o tom mais introspectivo e reflexivo da obra. Para ele, é nesse mergulho nas vulnerabilidades que reside o verdadeiro crescimento.

Questionado sobre o papel do hip-hop na construção de futuros para a juventude periférica, MV Bill foi direto: “Hoje não é mais como antigamente. Tem muita gente fazendo rap sem nem saber que está dentro da cultura hip-hop. E do outro lado, uma juventude que nem sempre quer ouvir aquilo que pode transformar. Existe uma desconexão.” Ainda assim, o rapper celebrou o espaço da feira: “Fico feliz quando tenho a chance de falar numa feira literária. Isso mostra que a chama ainda não se apagou.”
MV Bill também fez duras críticas ao elitismo no acesso aos livros e à falta de incentivo à leitura: “Por mais que a gente já tenha autores da periferia, a leitura ainda é uma parada distante. As pessoas perderam o hábito. Às vezes está tudo escrito na legenda, na foto, no vídeo, e a primeira pergunta é ‘onde é? quanto custa?’”. Para ele, a leitura precisa ser mais estimulada com campanhas efetivas e políticas públicas voltadas à democratização do livro.
Ele lembrou como os livros mudaram sua trajetória: “Tinha uma vida de escuridão. Não sabia qual era o meu posicionamento. E os livros abriram minha mente. Acho que eles ainda podem abrir a mente de muita gente.” Segundo o rapper, o celular e o entretenimento superficial muitas vezes substituem um investimento real no conhecimento e na imaginação.
Encerrando sua fala com um apelo, MV Bill defendeu uma ação nacional para reaproximar as pessoas dos livros: “A gente tinha que ter uma campanha de verdade. Federal, municipal, estadual. Porque, dependendo do tipo de livro, a pessoa larga o celular e mergulha em outra realidade. E isso, sim, transforma.”
